Atlântico Norte
Ela navega sobre todas as
palavras, ao ponto dos sons a terem feito nascer de uma só – “doce”, que é a
palavra perfeita. Para ela. Como ela.
Corrigindo: Ela é doce quanto
navegar sobre todos os sons, ao estranho ponto do prazer de nos deixarmos afogar
no amor feito pelos madrugadores apitos das fábricas com a grande sinfonia
esquecida do último bêbado que, em gritos desafinados, roubou a noite. E,
depois, o som do seu sorriso prolonga a doçura dos próprios sons, naquele
infindo gozo dos inesquecíveis momentos que vivem apenas e só nos pequenos
instantes a que chamamos eternidade.
Corrigindo outra vez: Ela é o som
da palavra “doce”, ela é o som de todas as palavras, tão doce quanto seu corpo,
sua voz, ou apenas sua imagem refletida nas ondas que dão à costa, sôfregas de
terra firme - mas embaladas de sonhos -, mais doce que a última maré de Verão
beijando o pôr-do-sol, que as mãos apertadas dos amantes que resistem, que a
maresia disfarçada dos mil cheiros da madeira molhada, por entre o chamamento
da lua. Aliás, mais doce, ainda, que a limonada da infância, com quilos de
açúcar e sabor a família, a avós. E saudade.
Pureza. Se calhar “pureza” é a
única palavra dela pela qual eu trocaria “doce”. Talvez. Mas do mesmo modo que
não trocaria uma troca de olhares – de palavras, que fosse – com ela por mais nada,
se calhar não teria coragem de trocar de palavras. (Talvez). Pensando melhor: se
calhar – por ela – até roubaria “pureza” e acrescentá-la-ia a “doce”, mesmo
arriscando prisão morfológica. Ficaria, então, “pudoce”, eventualmente “doceza”
– ou, se calhar, apenas “namorada”, a palavra mais bonita que jamais
inventaram.
(Não minha, não de ninguém,
apenas da vida pura, doce, de toda a Vida que maiusculamente ela merece. É que ninguém
a atará a nada – nem a própria vida -, já que a Liberdade lhe pertence, ela É a
Liberdade, e está mesmo ali, aqui, em todo o lado, ao virar da esquina dos
sonhos que todos temos. Ou seja, onde ela vive. Docemente.)
1 Commenários:
Ninguém é completamente livre. Nem completamente puro. Nem completamente doce. Só tu és um completo poeta...
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APC, at 2 de abril de 2013 às 01:10
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