CUOTIDIANO

terça-feira, junho 06, 2006

Anonimatos

Normalmente, diz-se que uma das grandes vantagens da blogosfera é o anonimato, dicionariamente definido como “a qualidade ou condição do que é anónimo, isto é, sem nome ou assinatura”, o que permite que alguém expresse as suas opiniões sem estar sujeito a qualquer tipo de restrição.

É parcialmente verdade. De facto, ninguém, a não ser os das minhas relações mais próximas, sabe o meu nome, idade, profissão. Mas, curiosamente, são aqueles que desconhecem aqueles meus dados estatísticos que melhor me conhecem, já que os outros, quando o que escrevo “não encaixa”, limitam-se a pensar e/ou a dizer “o gajo estava a gozar!”. Os desconhecidos, esses, limitam-se (e bem, no caso) a acreditar.

Na realidade, o verdadeiro anonimato passa-se no nosso dia a dia – a nossa verdadeira profissão é a de actores de nós mesmos, representando todos os dias a mesma peça, com algumas variantes ao sabor dos acontecimentos, tal qual a moribunda revista à portuguesa. Efectivamente, na blogosfera, normalmente diz-se a verdade e os outros bloggers são, na realidade, quem melhor nos conhece pois, perante eles, para quê representar, se somos os tais anónimos da história anterior? Não esqueçamos que, eles também, são anónimos perante nós! (é evidente que estou a excluir os blogs mais ou menos pessoais, em que se discutem temas restritos e restritivos - no “Cuotidiano” vale tudo menos tirar olhos, como se dizia no meu saudoso Liceu Pedro Nunes...)

Continuando... Habitualmente somos anónimos de nós mesmos, escrevendo na solidão do nosso quarto, normalmente à noite, (normalmente sem camisa-de-forças...), só nos tornando alguém por reconhecimento de outros anónimos que, teoricamente, não nos conhecem mas que, na realidade, são os nossos confessores, insultadores, amigos, inimigos, escarafunchadores e sabe-se lá mais o quê. Por outras palavras, na blogosfera, só somos alguém não porque algum alguém concreto nos conhece mas porque muitos ninguéns abstractos o fazem; ou seja, esses anónimos, provavelmente conhecem-nos mais e melhor do que pessoas com quem convivemos todos os dias e que, até, sabem o nosso número de contribuinte como, por exemplo, o(a) também nosso(a) normalmente idiota chefe (*).

Só queria terminar dizendo para uma blogger (recentemente e espero que para sempre) a.miga que, seja sem orelha ou sem parafuso cerebral, o que vale realmente a pena existirá sempre e somente dentro de nós - por mais foleiro que esta frase soe...

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(*) – Pequena e singela homenagem ao “Espaço Cinzento” cujo autor não conheço (no estrito sentido físico da palavra) mas que recomendo.

6 Commenários:

  • Bem, por esta é que eu não contava. Muito agradecido pela pequena e singela homenagem, que me soube ainda melhor pois foi acompanhada de palavras que muito me dizem e que, de facto, fazem muito sentido nestes tempos bloguísticos que vivemos.

    Obrigado e estou aqui a pensar em retribuir o gentileza!

    By Blogger Nuno Guronsan, at 6 de junho de 2006 às 19:50  

  • Há realmente poucas pessoas na nossa vida fora deste circuito que conheçam algumas das nudezas que por aqui vamos exibindo. É precisamente por isso que um blogue anónimo é, para muitas pessoas, uma espécie de terapia, de exorcismo. Por aqui andamos livres de preconceitos sociais, normas de actuação e hábitos viciantes.

    E é por causa dessa empatia imediata que referes que se acaba por criar um verdadeiro sentimento de estima com pessoas que nos habituamos a ler e que, para lá do ecrã, têm toda uma outra vida.

    Continuo a achar que o mundo blogueiro é o fenómeno sociológico da década em Portugal.

    By Blogger M., at 7 de junho de 2006 às 00:43  

  • Carissimo... esta não é o que se pode chamar "verdade Lapalisse" é a boa e bel ralidade 25 of April Portugal 1974 (+/- o equivalente ao fim do Vietnam).

    Mas eu ainda acrescento que o carissimo é um "blogista" com verdadeira sorte, porquê? porque a sua profissão é "actor de si mesmo" mas eu ... sou actor de mim, a fazer do outro eu para conseguir representar com realidade eu próprio e nem no blog posso mostrar quem sou.
    Tão simples:

    "Fuis dans ta solitude, mon ami! Je te vois assourdi par le bruit des grands hommes et déchiré par les aiguillons des petits. [...] Oú cesse la solitude commence le marché; et où commence le marché, commence aussi le vacarme des grands comédiens et le bourdonnement des mouches venimeuses. [...] Mon ami, fuis dans ta solitude et lá où souffle un air rude et fort. Ce n'est pas ta destinée d'être chasse-mouches."
    Ainsi parlait Zarathoustra

    Não... vou-me conter e não vai ser hoje que vou revelar o que quero mesmo fazer na vida.

    By Blogger CentiMeters, at 7 de junho de 2006 às 01:14  

  • Cuotidiano, tenho andado afastado dos comentários mas tenho acompanhado... Sempre muito bom.

    Outra coisa, por razão que eu ainda não consegui apurar, desapareceu um comentário seu de um post meu, que muito embora pareça ter sido apagado por mim, tal não aconteceu.

    Seria possivel recuperar?? é que eu até achei piada ao conto e ainda não lhe tinha respondido :)

    By Blogger José Raposo, at 7 de junho de 2006 às 17:05  

  • Vim até cá através de um blog amigo, mas gostaria de lhe dizer que as suas palavras são correctíssimas. Nunca li nada que identificasse tão bem este mundo do qual sou mais uma anónima.

    Estou de acordo com tudo!

    Felicidades!

    By Anonymous Alexandra, at 8 de junho de 2006 às 00:51  

  • Obrigado a todos por terem gostado do texto e, assim, me terem feito sentir menos anónimo.

    Alexandra, bem-vinda!

    By Blogger cuotidiano, at 10 de junho de 2006 às 17:22  

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