CUOTIDIANO

sábado, setembro 02, 2006

Teoria de Evolução e Criacionismo - ou seria Darwin apenas um macaco infiltrado na raça humana com o objectivo de nos lixar a religiosidade?


in revista "The Hornet" em 1871 (reprodução)


Li no “Público” de ontem, sexta-feira 1 de Setembro de 2006, século XXI, sublinho, 2006, século XXI, que o Papa “Bento XVI vai discutir a teoria da evolução com antigos alunos, hoje e amanhã, num debate que os cientistas seguem com toda a atenção”. Li também, no mesmo artigo, a seguinte questão: “Irá o Papa rejeitar a teoria da evolução e aceitar o criacionismo?”.

No mesmo artigo, surgia também um gráfico extraído da revista Science (de 11 de Agosto, vim a descobrir à minha custa), em que se ilustrava o grau de aceitação pública da Teoria da Evolução em 34 países, em 2005. Era pedido aos entrevistados que dissessem se consideravam a teoria de Darwin verdadeira ou falsa, tendo os resultados sido apresentados por país, em ordem decrescente de aceitação, gráfico esse que seguidamente se reproduz.

À excepção dos Estados Unidos, quase que se pode, por simples observação do gráfico, dizer que o mesmo poderia representar, também, o grau de evolução dos países, em termos de qualidade de vida, um conceito que seria a “amálgama” de diversos factores como escolaridade, capacidade económica, mortalidade infantil, etc.

Por forma a ser mais objectivo (pois aquela afirmação seria fruto de uma mera “comparação a olho”), criei um gráfico com os mesmos países, colocados pela mesma ordem e fazendo uma correspondência de escalas, mas agora em termos do “Índice de Desenvolvimento Humano” (correspodente a 2002, não consegui arranjar mais recente, lamento...), índice esse que tem em conta o Produto Nacional Bruto per capita, o grau de escolaridade e a esperança de vida. Para além disso, e para facilitar a análise do mesmo, coloquei uma “linha de tendência”, conforme se pode observar seguidamente.


Se se comparar essa linha de tendência com o limite das “barras azuis” do gráfico inicial, ver-se-á que existe uma assinalável correspondência de andamento entre os dois.

Analisando mais “finamente”, verifica-se que alguns países se afastam ligeiramente “para menos” da linha de tendência, como é o caso, por exemplo, da República Checa, Eslovénia, Polónia (país de grandes tradições religiosas, acrescidas peo facto do penúltimo Papa ter sido polaco), Estónia e Hungria, países que tiveram um grande desenvolvimento, nomeadamente económico, a partir de 2004 com a entrada na União Europeia, o que, eventualmente, os terá feito, em 2005, aproximar da referida linha – recordo que os valores referem-se a 2002, contrariamente ao primeiro gráfico, referido a 2005 - e, do outro lado (“para mais”) e mais significativamente, os Estados Unidos; ou seja, ao que parece, neste caso, a capacidade económica e a escolaridade não trazem correspondência com o concordar com a Teoria da Evolução.

(Antes de prosseguir, um parêntesis – não estou com isto a querer dizer que criacionismo é igual a incultura ou, no limite, estupidez. De modo algum - respeito do mesmo modo pessoas religiosas como não religiosas, acredito piamente na liberdade individual de escolha de cada um. Este pequeno esclarecimento foi só para evitar mal-entendidos e preconceitos de raciocínio. Adiante perceber-se-á melhor.)

De facto, os Estados Unidos tendem sempre a ser um caso aparte, então desde que o inenarrável George W. Bush é presidente. Depois desse triste acontecimento para a Humanidade - reconheço que esse senhor é um dos principais obstáculos à aceitação da Teoria da Evolução, já que não há ninguém que não conheça um macaco mais inteligente que ele – depois disso, dizia eu, tem-se visto o aumento do número de estados americanos que tentam (e alguns conseguem) eliminar a Teoria da Evolução (mesmo considerando-a “teoria não provada”...) das escolas – ao que sei, por exemplo no Kansas, é mesmo proibido ensiná-la. Isto sim, é uma involução.

Refira-se que, nos Estados Unidos, se chegou ao requinte de existirem movimentos com crescente peso social que defendem a interpretação literal, sublinho, literal, da Bíblia, ou seja, por exemplo, que a Terra e a Vida foram criadas mesmo em seis dias. – mas haverá algum cristão minimamente culto que acredite nessas interpretações literais da Bíblia? Por este andar, qualquer dia, os Estados Unidos propõem que João Paulo II seja excomungado, pois “absolveu” (cerca de 400 anos depois, mas sempre é melhor tarde que nunca...) Galileu Galilei no processo inquisitorial que lhe foi na altura movido, devido à suprema heresia de demonstrar que a Terra é que gira em torno do Sol e não o inverso, conforme defendia a Igreja.

Como se pode comprovar no exemplo anterior (o caso de Galileu) e por muitos outros ao longo da História, normalmente a religião é o “lastro” da evolução, nomeadamente científica, da Humanidade – veja-se, actualmente, toda a polémica em torno da questão das células estaminais (*). – acabando por só aceitar os avanços da Ciência com séculos de atraso, “atrapalhando” pelo caminho. Como é evidente, não estou com isto a dizer que a Ciência não deve ser balizada – tem de haver algum controlo ético, nomeadamente quando se trata de questões de genética já que não é o mesmo a manipulação de células indiferenciadas para efeitos de tratamento de doenças (cancro, Alzheimer...) e a criação artificial do “homem- perfeito-de-olhos-azuis-e-cabelo-loiro”, como um bigode célebre queria.

A minha opinião sobre isto tudo é muito simples – à medida que a Ciência e o Conhecimento avançam, o espaço para a religião vai diminuindo, já que deixam de ser precisos conceitos “divinos” para explicar determinados acontecimentos e fenómenos. Assim, o verdadeiro problema está nas instituições religiosas que, não querendo “perder poder”, procuram manter, a todo o custo, o Conhecimento afastado das pessoas, rotulando-o de “imoral”, “ofensivo a Deus” e epípetos semelhantes.

Curiosamente, dentro desse poder também existe o poder económico – será que Jesus Cristo aceitaria a acumulação desmesurada de riqueza no Vaticano ou preferiria investir em meios de desenvolvimento para os mais desfavorecidos e destribuir dinheiro por quem precisa, acabando, por exemplo, com a fome em África? E a nível mais caseiro, tivesse Jesus Cristo dinheiro iria ele construir o novo Santuário de Fátima, ou gastaria o dinheiro com os mais necessitados? Enfim...

Conforme dizia atrás, o espaço religioso irá diminuindo e, na minha opinião, tendendo para o espaço interior de cada um, nomeadamente no apoio para vencer os nossos medos, angústias e dúvidas interiores – por exemplo, o medo da morte, se haverá .mais que uma vida... – e para a espiritualidade individual, seja ela partilhada colectivamente ou não.

Finalmente e citando a Bíblia, Jesus Cristo terá dito "Dai a Cesar o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22,21) – então e porque não se aplica este conceito à Igreja e à Ciência? Assim, e para terminar voltando ao tema que serviu de base para este texto, não acredito que o Papa Bento XVI tenha um assomo de involução e não siga o exemplo do seu antecessor, que tentou sempre ter uma relação o menos conflituosa possível com a Ciência.

_________________________

(*) A título de curiosidade, o ex-presidente Reagan era contra todos os estudos que implicassem qualquer manipulação de células, quaisquer que elas fossem mas, algum tempo depois de ter ficado com Alzheimer, veio à Imprensa sua mulher, Nancy, defendendo o avanço destes estudos. Quando nos toca...



PS – Peço desculpa por toda esta seriedade, a parvoíce regressa dentro de momentos.

3 Commenários:

  • "Conforme dizia atrás, o espaço religioso irá diminuindo e, na minha opinião, tendendo para o espaço interior de cada um, nomeadamente no apoio para vencer os nossos medos, angústias e dúvidas interiores – por exemplo, o medo da morte, se haverá .mais que uma vida... – e para a espiritualidade individual, seja ela partilhada colectivamente ou não"

    Este parágrafo tem muito que se lhe diga. Talvez o faça num futuro não muito distante.

    Parabéns, amigo, a seriedade é tão boa e fica-te tão bem como a parvoíce. Abraço.

    By Blogger Nuno Guronsan, at 2 de setembro de 2006 às 18:43  

  • Gostei muito da seriedade.

    By Blogger redonda, at 4 de setembro de 2006 às 02:39  

  • É de facto uma análise deveras interessante!
    O que se passa actualmente nos Estados Unidos é um bocado bizarro, mas com um cristão renascido à frente do poder, enfim...
    Embora o problema a meu ver não seja apenas esse, tal como cá comparando o interior com o litoral veremos certamente grandes diferenças de pensamento, nomeadamente sobre este mesmo assunto. Também nos Estados Unidos isso acontece, aliado ao facto de no caso deles as diferenças de mentalidades nalguns casos serem verdadeiramente abissais!

    By Blogger nunf, at 6 de setembro de 2006 às 00:28  

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