CUOTIDIANO

sábado, dezembro 23, 2006

Resistindo ao Invasor

Estamos há um ano e meio no bunker resistindo ao invasor bem que soldados dele nos batem periodicamente à porta em camisinha branca tentando doutrinar-nos mas nós disfarçamos e dizemos sempre não está ninguém só nós as cadeiras e eles vão-se embora os palermas pelo que conseguimos ver por uma fresta mal tapada do nosso refúgio vêm sempre de prontuário na mão dizendo que ali reside a salvação e que a vírgula marca uma pausa curta e que as reticências assinalam uma suspensão de frase balelas gramaticais e que está para descer à Terra mais coisa menos coisa daqui a um ano vá lá dois o anjo dos três pontos que nos irá salvar mais ainda mas nós não somos desses nunca seremos e nunca nos deixaremos converter e nunca sairemos daqui a chatice é que cheira mal à brava deve ser do Jorge que era um purista e tentou ler o esboço deste texto de um fôlego só como mandam as regras conforme ele dizia e morreu de falta de ar ou disso ou dos pés do Santos da mercearia mas parece-me mais provável ser do Jorge por causa das larvas que já lhe levaram os olhos adiante dizia eu que não usámos não usamos e não usaremos qualquer sinal de pontuação que isso seria pactuar com o inimigo e nós não somos nenhuns vendidos não senhor e não nos deixaremos aculturar até no outro dia o Antunes queria fazer uma concessão e escrever pondo lá pelo meio um ponto em cima de uma vírgula e até fui eu que disse alto lá que isso não é Literatura é deboche um ponto põe-se numa vírgula e depois sabe-se lá o que acontece ainda têm um filho e imagina que sai um ponto de exclamação e depois o ponto diz porra que este não é parecido comigo deve ser filho mas é do leiteiro e a vírgula que chatice és um desconfiado do caraças e o ponto os meus pais e os meus avós também eram baixos e redondos como eu explica-me lá como é que saiu esse fininho ai o caraças que já me estou a chatear e às tantas começavam à porrada e aos tiros e os danos colaterais eram as palavras e depois os textos ficavam em branco e tínhamos que voltar aos sinais de fumo mas os sinais de fumo só lá fora do bunker e assim éramos apanhados e por isso tivemos de matar também o Antunes eh pá se calhar é daí que vem o mau cheiro desculpa lá ó Jorge por te ter invectivado em vão e as larvas não responderam mas vai daí começaram todas a cantar à Hollywood e a fazer sapateado em cima dele deve ser da droga um gajo pensa que estas porcarias só acontecem aos outros mas afinal só dei uma passita, caramba eh pus uma vírgula deve ser de estar drogado que um gajo nestas alturas só pensa em mamas e nem sabe o que faz vai daí o Santos disse-me faz outra dessas faz e também morres e eu respondi tu e mais quantos e espetei-lhe um ponto de interrogação que os invasores tinham deixado por debaixo da porta pelo rabo acima e rodei-o só para chatear e o sacana disse que até nem era mau de todo não é que gostou e que para a próxima quer também um ditongo e eu o caraças ou julgas que eu sou daqueles que põem ditongos onde calha os ditongos são para se usar criteriosamente e ele ‘tá bem e eu cheirei o Antunes para voar mais alto e quando ia a trincar qualquer coisa antes de jantar ou seja mais uma larva do Jorge ela disse-me é melhor não que eu comi dois pontos agora mesmo e estou a sentir-me mal e ainda apanhas uma congestão e eu perguntei onde é que os arranjaste e ela disse foi o Santos que me deu e então tive de acabar também com o Santos que isto da pontuação pode ser como uma epidemia depois espalha-se e sabe-se lá o que pode acontecer ah é verdade como tive de matar o Santos fiquei sozinho aqui com um mau cheiro do caraças mas resistindo despontuação ou morte, vencerei! Porra pus não um mas dois sinais de pontuação deixei-me levar pelo momento pronto não mereço viver bem dizia o Santos vou-me suicidar também nem é preciso fazer muito com este cheiro basta respirar e vou inspirar muito e à brava

Fui

6 Commenários:

  • *****!!!

    ;-)

    By Blogger APC, at 23 de dezembro de 2006 às 20:59  

  • Homenagem ao Saramago? Merda não sirvo para isto uma vez que já deixei aqui um ponto de interrogação e eu que nem sequer gostei da idade dos porquês

    Um grande abraço por fazeres parte do meu quotidiano e desejos de um feliz Natal, mesmo que resistindo ao invasor ;)

    By Blogger Nuno Guronsan, at 23 de dezembro de 2006 às 21:22  

  • Caro Cuotidiano

    Desejo um bom natal e um novo ano pleno de saúde e felicidade, para ti e para todos os que amas.

    Caso fosse possível dar-to pessoalmente, gostaria, este Natal, de te oferecer um livro do Lobo Antunes - um título ao meu gosto - que, exactamente, enfatiza a escrita sem acentuação como forma discursiva delirante.

    O Saramago, segundo a minha modesta opinião - que vale o que vale - não sabe mesmo pontuar, daí as ausências...

    Um abraço amigo.

    El Madrigal (do Natal)

    By Anonymous madrigal, at 24 de dezembro de 2006 às 11:10  

  • Caro Cuotidiano.

    Ah! Já me ia esquecendo o que te queria dizer.

    Não sei porquê (ou sei?!) revi-me um pouco num dos personagens do teu texto... esta coisa de me associar a certas coisas que leio, é fruto de hábitos antigos e de uma overdose de leituras, da qual, segundo julgo, jamais recuperarei.

    Um abraço amigo.

    By Anonymous madrigal, at 24 de dezembro de 2006 às 11:30  

  • "A escrita sem acentuação como forma discursiva delirante" - bistes, bistes??? Ora pois! ;-)))

    By Blogger APC, at 25 de dezembro de 2006 às 05:16  

  • Quem é o invasor O que faz aqui Quem cheira mal dos pés e porque é que ninguem fala em defecar
    Eu sei bem o que está aqui escrito a mensagem do Cuotidiano é uma nitida forma de comunicar com os russos Eu vi há uns 30 anos uma mensagem igual para o Bregenev e a consequência foi o terrivel ataque a Woodstock
    Não amim não me enganas Cuotitiano
    E essa estória da puntuação é mentira
    Parece um ensaio sobre a cegueira com oculos graduados para 20 diopterias

    By Anonymous Sara Mago, at 6 de janeiro de 2007 às 12:05  

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